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Chipembere, Habil Matthew
n. 1900 f. 1966
Anglicano
Malaui

Habil Matthew Chipembere foi um dos mais importantes líderes anglicanos do Malaui do século XXI.

Nasceu por volta de 1900 [1], cinco anos depois que os missionários anglicanos da Missão Universitária para a África Central (MUAC) [2] estabeleceram a primeira missão permanente na ilha de Likoma. O nome do seu pai era Chipa Chipembere, mas também era conhecido como Faida. Os Chipemberes pertenciam à tribo de Nyanja que tinha se estabelecido às margens do Lago Malaui no atual Moçambique. Os Chipemberes ainda jovens tornaram-se prósperos e tinham um status social considerado na sua comunidade, como resultado do seu trabalho intenso na indústria exportadora.

Em 1915 Habil Chipembere freqüentou St. Michael's College [3], uma instituição anglicana na ilha de Likoma. Não conseguiu terminar seus estudos a tempo devido à primeira Guerra Mundial e à estrutura do curso. [4] Depois de ensinar de 1915 a 1921, ganhou seu registro de professor em 1921. Casou-se em 1919. Seu primeiro pastorado foi Nkhotakota, Visanza no Malaui Central. Ele foi um dos dois primeiros professores a passar na prova do governo para professores. [5] Como resultado disto e do seu excelente trabalho como professor e evangelista, Chipembere foi promovido a leitor oficial, posto este que é outorgado àqueles professores com potencial para ser treinados para o sacerdócio.

Treinamento para o sacerdócio

Durante o seu treinamento no St. Andew's College, Chipembere recebeu a formidável influência do diretor Arthur D. B. Glossop, um padre anglicano que recebeu a educação tradicional de Oxford e um crente fanático da ordem e excelência do sistema britânico. Assim como outros, Chipembere cursou o seminário sob os olhos atentos dos missionários. O regime estrito procurava ensinar aos estudantes lealdade e submissão à autoridade. O medo de um relatório negativo que pudesse levar à exclusão do seminário pelo diretor, dominava as suas vidas. O treinamento no seminário teológico durou três anos. Chipembere tornou-se um estudante modelo do sistema. Entre sete graduandos, Chipembere foi um dos cinco chamados para prosseguir estudos para o sacerdócio.

Em 1935 Chipembere foi ordenado diácono pelo Bispo Alston May da Zâmbia. [6] Primeiro ele foi enviado a Langwena, uma vila dominada pelos Yao, no sudeste do Malaui, [7] um lugar conhecido pelo seu forte domínio islâmico. Ao perceber que o sucesso do seu trabalho dependia da boa vontade dos líderes e chefes locais muçulmanos, Chipembere não os condenou na sua religião, assim como os missionários tinham feito e causado um antagonismo. No entanto, ele respeitou o Islã e os seus fiéis seguidores, e assim conseguiu cultivar uma relação saudável com a comunidade muçulmana, e como retorno ganhou o respeito e a admiração deles.

No dia 21 de janeiro de 1938, depois de cinco anos de treinamento no seminário e em campo, Chipembere e os seus quatro colegas de estudo foram ordenados padres na Catedral de Likoma pelo Bispo Frank Oswald Thorne. [8]

Nasce um grande líder

Depois da ordenação, Chipembere foi enviado para Liuli, no sudoeste da Tanzânia, para a sua primeira designação pastoral, sob a autoridade de um missionário chamado Father Claude Seargent, um homem cinco anos mais novo de Chipembere. Um episódio particular ajuda a entender o preconceito racial que os missionários às vezes mostravam aos seus subordinados africanos. Na manhã em que Chipembere e a sua família partiram para as férias, Seargent enviou trabalhadores africanos às margens do lago para revistar a bagagem de Chipembere em procura de dinheiro que, segundo Seargent, tinha sido roubado da missão. Houve rumores de que Chipembere provavelmente o tinha roubado na esperança de afastar-se prontamente e não poder ser revistado. Após a revista somente foi encontrado o dinheiro que Seargent mesmo tinha pago a Chipembere pelas suas férias. [9] Não há registros da reação de Chipembere sobre este incidente; é provável que ele tenha se sentido ofendido pela atitude de Seargent, mas jamais protestou abertamente. É possível que a mentalidade do seminário que promovia a lealdade à autoridade o tenha impedido de falar aberta e publicamente.

Destinado para um alto cargo

A vida de Chipembere decorreu paralelamente ao futuro do primeiro Bispo do Malaui, Josiah Mtekateka que também estava crescendo dentro da estrutura de poder da diocese do Sudoeste de Tanganyika. [10] Chipembere serviu em diversas paróquias, incluindo Malindi e Matope. É provável que lhe tenham pedido para abrir novas paróquias - a mais notável foi Namalomba - porque era muito confiável. Conseqüentemente, ele cresceu rapidamente na hierarquia da igreja.

Na década de 60 a igreja em Malaui passou por grandes mudanças e a Igreja Missionária começou a passar a liderança para os africanos. Para os missionários da MUAC foi importante escolher o padre africano certo como bispo, alguém que pudesse preencher a função de acordo com a tradição da MUAC.

A partir dos anos 50, Chipembere foi um dos poucos padres altamente respeitados na Igreja Anglicana do Malaui. Portanto, a MUAC lhe concedeu importantes funções. Em 1957, Chipembere e Stanley Mandala representaram a igreja do Malaui [11] nas celebrações do centenário da MUAC na Inglaterra, enquanto Josiah Mtekateka representava a Diocese Anglicana do Sudoeste de Tanganyika.[12] Durante a conferência Chipembere teve cinco minutos para expressar ao plenário o agradecimento em nome do povo de Malaui pelo trabalho da missão. [13]

No dia 15 de janeiro de 1961 o Bispo Thorne indicou Chipembere como arquidiácono, [14] o primeiro padre malauiano a ocupar este cargo, que é o primeiro abaixo do Bispo na hierarquia anglicana. Em junho do mesmo ano, Thorne nomeou Chipembere cônego da Catedral de St. Peter. [15] Chipembere passava a ser o padre malauiano superior na Igreja Anglicana do Malaui e um dos principais assessores do Bispo. Obviamente, a igreja missionária no malaui e, particularmente, o Bispo Thorne, tinha grande consideração por Chipembere. Também em 1961, por um curto período de ausência do vigário geral, Christopher Lacey, o Bispo Thorne nomeou Chipembere como vigário geral. [16]

Entretanto, depois que o Malaui conquistou autonomia em 1961, Chipembere com a aprovação do seu Bispo e de alguns de seus colegas, trabalhou como membro do parlamento [17] no lugar do seu filho Henry Chipembere, que cumpria uma sentença na prisão, baixo o governo colonial. Chipembere passou a ser confidente de Banda. Ele tinha alcançado o topo de sua carreira, mas o seu envolvimento com a política nacional sugeria que ele aspirava um posto mais alto, o qual não estava aberto para ele na Igreja Anglicana.

Em 1963, Chipembere e alguns outros, pressionaram o Bispo Thorne para nomear um Bispo malauiano. Na sua correspondência com Frank Thorne, o Bispo Donald Arden declarou: "Na reunião em Nkhotakota com todos os clérigos da arquidiaconia Chipembere e outros me deram o prazo de cinco meses para consagrar um bispo africano na área." [18]

Depois da independência do Malaui em 1964, o Dr. Banda teve problemas com alguns dos ministros do seu gabinete num incidente que ficou conhecido como: "A crise do gabinete", e Henry Chipembere foi exilado na ilha de Likoma e mais tarde teve que fugir para a Tanzânia. [19]

Em 1965 por ocasião da eleição do primeiro Bispo do Malaui, Josiah Mtekateka, um malauiano que trabalhava na diocese do sudoeste da Tanzânia foi eleito, em vez de Chipembere. No ínterim, e respondendo a carta do Bispo Arden sobre a eleição de Mtekateka como primeiro Bispo malauiano, depois das complicações da "Crise de gabinete", Thorne declarou: "Agora não tenho dúvidas que deveria ter nomeado um bispo assistente africano quando eu ainda era Bispo da Nyasaland, - se eu o tivesse feito, seguramente teria sido Chipembere, mas é uma especulação interessante e inteiramente acadêmica, perguntar qual seria a situação hoje,... se isso tivesse acontecido."

Os comentários de Thorne parecem sugerir que a sua decisão, de não nomear Chipembere bispo, estava certa. Ele talvez acreditasse que os problemas do filho de Chipembere poderiam afetar não somente a sua posição, mas também a igreja. Por outro lado, Thorne pode ter considerado que o envolvimento político do seu filho, em particular a sua oposição ao governo colonial britânico, era um fator negativo para Chipembere. Isto indica que apesar das autoridades admirarem as qualidades de liderança e iniciativa de Chipembere entre 1961 e 1964, eles jamais confiaram nele. A sua participação direta no governo de Banda parece ter reduzido as suas chances de se tornar bispo.

Henry Mbaya


Notas:

1. Rotberg, p. 46.
2. A Missão das Universidades para África Central (MUAC) era sociedade missionária da Igreja da Inglaterra que foi formada em 1858 para evangelizar a África Central.
3. Rotberg, p. 49.
4. Rotberg, p.49.
5. Rotberg, p. 51.
6. Rotberg, p. 55.
7. Rotberg, p.55.
8. Rotberg, p. 66.
9. Rotberg, p. 190.
10. Veja: Blood, Vol. III, p. 389, 390, 391.
11. Blood, Vol. III, p. 385.
12. Blood, Vol. III, p. 389.
13. Blood, Vol. III, p. 387.
14. Nyasaland Diocesan Chronicle, vol. 34, no. 27.
15. Nyasaland Diocesan Chronicle, vol. 21, no. 17.
16. OR/38/2/1, Arquivos da Diocese Anglicana do Sul do Malaui.
17. Ibid.
18. Bispo Arden, carta ao Arcebispo Oliver-Green Wilkinson, 18/9/63, Arquivos da Diocese Anglicana do Sul do Malaui.
19. Tengatenga, capítulo cinco.

Bibliografia:

Blood, A. G. The History of the UMCA 1907-1932, Vol. II. Londres: UMCA, 1957.
Blood, A. G. The History of the UMCA 1933-1957, Vol. III. Londres: UMCA, 1962.
Rotberg, I., (ed.). Hero of the Nation Chipembere of Malawi: An Autobiography. Kachere Book no. 12. Blantyre: CLAIM, 2001.
Arquivos da Diocese Anglicana do Sul do Malaui, Malosa Zomba, Malaui.
Nyasaland Diocesan Chronicle, vol. 34, no. 27. Arquivos da Diocese Anglicana do Sul do Malaui Malawi, Malosa, Zomba, Malawi.
Nyasaland Diocesan Chronicle, vol. 21, no. 17. Archives of the Anglican Diocese of Southern Malawi, Malosa, Zomba, Malawi.
Tengatenga, J. "Church, State and Society in Malawi: An Analysis of Anglican Ecclesiology." Tese de doutorado não publicada, Chancellor College, Universidade do Malaui, 2002.

Este artigo foi recebido em 2004, e foi escrito e pesquisado por Henry Mbaya, um doutorando da Escola de Teologia da Universidade de Natal sob a supervisão do Dr. Philippe Denis, professor de História do Cristianismo e representante coordenador do DIBICA.