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Mainga, Noé
1928 a 1976
Igreja do Nazareno
Moçambique

O Rev. Noé Jossias Mainga amava o seu pai, Pastor Josias Mainga, embora ele houvesse morrido quando Noé ainda era muito jovem. Ele brincava de igreja quando rapazinho. Trazia água num tambor puxado por um burro. O poço donde tirava a água tinha doze metros de profundidade. Ele também cuidava das cabras, ovelhas e vacas da família. Uma vez caiu dum burro e levou um coice no queixo, que lhe deixou uma cicatriz permanente. Amava os passarinhos, e em especial os tentilhões.

Contou como os rapazinhos costumavam cavar à procura de masengani (gerbilos) na savana. Era um tipo de rato que os rapazes gostavam de comer. Um dos seus amiguinhos chamava-se Bayekani. Ora, os pais dos rapazes recomendavam-lhe que ao cavassem à procura desses ratos. Avisaram os filhos que nunca metessem a mão no buraco, porque podia haver serpentes venenosas neles. Bayekani não fez caso do aviso; e quando caçavam os ratos ele sempre metia a mão no buraco. Um dia ele sentiu alguma coisa que achava ser um rato; segurou o que sentiu e puxou-o para fora. Era uma mfezi (cobra) grande.

A cobra mordeu o dedo do rapaz e embora ele tentasse sacudi-la para se libertar, ela agarrou-lhe o dedo por um bom tempo. O dedo começou a sangrar muito e inchou-se imediatamente. Ele voltou para a casa e foi levado ao hospital para ser tratado. Conseguiram salvar-lhe a vida, mas o dedo foi ferido gravemente e ficou com uma cicatriz. Mais tarde, quando pregava, o Rev. Mainga usava isto para ilustrar o pecado da desobediência a Deus.[1]

Em 1944, Noé deu a sua vida a Cristo num culto feito debaixo duma Mbimbi em Njatigue. Explicou a experiência da seguinte maneira: "O meu coração cantava alegremente.". Então, em 1948, enquanto ele freqüentava o Colégio Bíblico em Siteki, Suazilândia, durante a visita do Rev. David Matthews (que ficou famoso com o avivamento no País de Gales) ele foi santificado. Descreveu a experiência assim: "O meu coração foi cheio do amor perfeito, e eu só queria conhecer toda a vontade de Deus.". Muitos anos depois ele continuava a testemunhar, afirmando que ainda se regozijava com a experiência do mesmo Espírito.

Ele começou a estudar na escola do governo em Manjacaze. Então, como o seu pai morrera, as autoridades ameaçaram encarcerá-lo se ele voltasse para os nazarenos em casa. Porém, em 1942, fizeram-se arranjos para ele ficar com os nazarenos em Maputo a fim de que pudesse continuar na escola e aprender o português. Dali ele foi ao Colégio Bíblico em Siteki, Suazilândia. Em 1950 serviu como pastor em Nhacutse e começou uma escola que as autoridades fecharam em 1952, como sendo ilegal. Ele precisava casar-se, mas como nunca tinha ido à África do Sul para trabalhar nas minas, não tinha o dinheiro para lovola.

Uma tia dele, a Sra. Lea Mainga, e outros ajudaram-no; ele casou-se com a Sra. Maria Enoque Mambo. O Rev. Simão Machava fez o casamento. Maria Mainga (?-1957) apanhou febre tifóide. O marido levo-a ao hospital em Manjacaze, mas não conseguiram ajudá-la. Foi então levada a Mausse, mas pouco depois verificaram que ela não podia viver por mais tempo. Levaram-na para a casa em Njatibye no dia 13 de Fevereiro, e morreu uma hora depois de lá chegar. Cerca de duzentas pessoas assistiram ao enterro dela. Era uma cristã exemplar; ajudou todos no trabalho da igreja, onde quer que fosse. O Rev. João Muchave disse dela: "A Igreja do Nazareno perdeu um soldado na batalha. O distrito de Njatibye perdeu um "homem" que era uma mulher. A igreja local perdeu uma pessoa que trabalhava. O seu marido, Noé, perdeu uma flor linda que murchou cedo demais. Maria deixou uma filha de um ano. Por um lado choramos, mas por outro temos conforto."[2]

Em 1957 o Sr. Mainga começou a lecionar no Colégio Bíblico em Machulane (Tavane). Então em 1958 casou-se com a Sra. Rosita Zimila e tiveram cinco filhos. O Superintendente Geral Doutor Samuel Young ordenou-o também em 1958.[3] Em 1959 ele estudou o quarto ano do curso superior no Colégio Bíblico. Foi nomeado diretor do Colégio Bíblico, em lugar da Sra. Lorraine Schultz, em 1975, quando se deu a revolução. Naquela altura, o Sr. Mainga insistiu em acompanhar as missionárias, Sra. Lorraind Schultz e Sra. Pat Buffett, até Maputo (trezentos e cinqüenta quilômetros para o sul) quando elas foram forçadas a sair.[4] Em 1976 os ministros ordenados em Moçambique escolheram-no para ser o seu presidente e intermediário nas negociações com o novo governo. Depois da independência e a implementação da política de nacionalização, muitas pessoas viram o hospital e a missão em geral como uma fonte de coisas que elas podiam usar em suas casas. Os medicamentos, as camas, mantas, mesinhas, os jarros para água e outras coisas pequenas foram retiradas do hospital. O Sr. Noé Mainga denunciou este saque ao administrador do distrito, que enviou tropa para o hospital a fim de evitar prejuízos maiores, e as buscas realizadas resultaram em devolução de algumas das coisas roubadas ao hospital.[5] Foi um tempo sombrio para todos. A Igreja do Nazareno perdeu toda a influência que tivera no hospital, e foram proibidas até mesmo orações com os pacientes.

O Rev. Mainga adoeceu gravemente, com cancro no fígado, em junho daquele ano, e sofreu muita dor. Durante a noite de 25 de Junho de 1976, enquanto todos dormiam, ele saiu da sua casa em Njatigue e, nas trevas, correu caminho abaixo até ao vale do Sulwe. No caminho tropeçou, evidentemente, e caiu num poço de cimento que estava cheio de água, afogando-se , ainda vestido de pijama. Mais tarde, naquela noite, a família descobriu que não estava na sua cama; começaram a buscá-lo freneticamente e descobriram as pegadas dele que terminavam junto ao poço. Ao nascer do sol, viram o seu corpo a boiar. Nenhuma água foi-lhe descoberta nos pulmões.

Certa manhã, antes da sua morte, dois dos seus colegas, o Professor Vicente Mbanze e o Rev. João Mondlane, visitaram o Rev. Mainga. Notaram uma depressão estranha e uma falta de concentração da parte dele, causadas pela dor intensa que sofria. Duas semanas antes, os mesmos dois colegas visitaram-no na quarta-feira e choraram enquanto oravam. Ele sairia na manhã seguinte rumo ao hospital. O Rev. Mbanze disse: "Ele orou por nós os dois para que continuássemos o trabalho do Colégio Bíblico em Tavane. De facto, ele viu a morte à sua frente. Nós não percebíamos naquela altura a razão porque ele orava assim."[6]

Aqui registramos alguns tributos prestados pelos seus colegas no grande culto memorial em Njatigue que foi dirigido pelo Superintendente distrital, o Rev. Benjamim Langa: "Ele foi um verdadeiro amigo e irmão. Eu tornei-me pessoa por causa dele." (Rev. Elias Mucasse). "Ele foi um entre mil e tinha o coração suficientemente grande para incluir a todos. O seu trabalho como homem de Deus entre nós continuará a ser visível e há de crescer." (Pastora Ana Mathusse)

"Eu conhecia-o como filho por muito tempo durante a sua vida, através do grande crescimento nos distritos. Muitos se arrependeram e foram renovados através dele. Ele ensinou-me muitas coisas que me deixaram admirado, as quais vieram da direção divina. Ele pediu-me para o visitar recentemente, e as suas últimas palavras foram: 'Estou contente; sinto-me em paz. Eu fiz o que podia, enquanto ainda tinha saúde. Eu conto morrer desta doença'." (Rev. João Muchava)[7]

Paul S. Dayhoff



Citações:

1. Rev. Noé Mainga, "Pecado," Mutwalisi (O Arauto), revista na língua Tsonga da Igreja do Nazareno em Moçambique e África do Sul, (Florida, Transvaal, África do Sul: Nazarene Publishing House), Janeiro-Março, 1971),13.
2. B. Emslie, With both hands: The Story of Mary Cooper of Gazaland (Com ambas as mãos, A história de Mary Cooper de Gaza), (1970), 77-78. Rev. Joao Muchave, Umphaphamisi (O Arauto), revistas nas línguas SiSwati e Zulu da Igreja do Nazareno na Suazilândia e África do Sul, (Florida, Transvaal, África do Sul: Nazarene Publishing House, 1958),3.
3. Noé Mainga, relatório autobiográfico traduzido do português por Lorraine Schultz, (29 de Maio de 1965).
4. L. Schultz, (carta geral, 12 de novembro, 1975).
5. Benjamin Langa,The Church of the Nazarene in Mozambique: A Brief History(A Igreja do Nazareno em Moçambique),(1998), traduzido de português por David W. Restrick,6.
6. Vicente Mbanze, (carta, 13 de Abril, 1995).
7. Neemias Andre Chaia, Relatório do Funeral do Rev. Noé J. Mainga em Njatigue, na língua changana, dactilografado por L. Schultz.



Este artigo é reproduzido, com permissão do livro Living Stones In Africa: Pioneers of the Church of the Nazarene, edição revisada, direitos do autor © 1999, por Paul S. Dayhoff. Todos os direitos reservados.

Este artigo foi traduzido da língua inglesa pelo Rev. Roy Henck, missionário reformado para Cabo Verde, e pelo Rev. António Barbosa Vasconcelos, pastor cabo-verdiano.




Noe Mainga